Sábado, Novembro 14, 2009

Recordar é viver

Há um ano, escrevi um texto sobre o bar da Feira do Livro.

Por acaso, sobre o que fazer no bar da Feira em um sábado à noite.

Então, hoje, um sábado, já quase noite, e você aí... que tal passear por lá?

Não?! Pelo menos, imagine:

http://andreroca.blogspot.com/2008/11/o-bar-da-feira-do-livro-em-um-sbado.html

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Vai sonhando!

Primeiro eu tirei o All Star dela. Confesso que tava com receio. Ela teve um dia longo no trabalho, e o pisante era daqueles de cano alto. E eu não queria que o primeiro cheiro mais, hmmm, íntimo que sentisse dela fosse algo, bem, algo desagradável. Sabe como é, né? Primeiro encontro, e tal. Bom, mas eu tava ajoelhado. E ela atirada no sofá. Atirada assim, com os cotovelos apoiando o corpo, os joelhos grudados, uma perna levantada com o pé apoiado no meu peito e o outro aguardando o momento de ser despido também. Acho que levei uns cinco minutos para conseguir desamarrar o primeiro. Foi difícil avançar de fase, confesso. Mas na hora de tirar o segundo... uma moleza. Eu já tinha know-how, né. Tá, claro, também dei sorte. Afinal, o cadarço já tava frouxo, a lingueta um tanto solta. Acho que levei só uns 30 ou 40 segundos na tarefa. E o meu temor inicial se desfez por completo quando senti aquele aroma de lavanda vindo daquelas meias de algodão, branquinhas como brancas devem ser as meias de algodão. De um golpe só, tirei as duas. E com aqueles pés em mãos, comecei a beijá-los, e a acariciá-los, e a tocá-los como devem ser tocados os pés de mulheres como essa. Pés cavos, diga-se. Esse tipo de mulher não tem pé chato. Ela, literalmente, tem curvas da cabeça aos pés. A essa altura ela já havia descolado os joelhos e, aos risinhos, tentava me puxar para cima. Mas eu demorei nos pés. Demorei mesmo. A gente sempre escuta que a preliminar deve ser demorada, não? Nada melhor do que começar demorado, pensei. Mas aí ela se irritou, colocou um dos pés no meu ombro direito e me empurrou. Caí sentado em um tapete duro como pedra. Acho que foi ali que fiquei com o problema crônico no braço. Toda vez que faço um movimento mais amplo ele estala, e forte. Olhei torto pra ela, que riu com o canto da boca. E aqueles olhos amendoados me fizeram pular do chão para o sofá. Ela arrancou minha camisa e jogou sem direção. Caiu em cima de um vaso, perto da janela que estava aberta. Cara, absurdo, mas fiquei preocupado. Imagina se cai lá no pátio. Ia dar merda. Sem contar que poderia ter sujado de terra no vaso. Mas aí notei que aquela era uma planta artificial, e plantas artificiais não precisam de terra. A base de sustentação do troço era tão artificial quanto. Tava pronto pra iniciar uma tese sobre a bobagem que ela tinha acabado de fazer quando ela agarrou minha cabeça com as duas mãos, pressionou contra o peito e me empurrou para baixo. Desafivelei aquele cinto de marca que ela usava com dificuldade, achando que era o último obstáculo. Que nada! A calça tinha mais botões que painel de avião. E quanto botão falso!!! Quem foi o maldito que inventou uma calça com botões falsos?!?! Qual a utilidade de um botão, que não a finalidade dos botões de fechar as calças para que as calcinhas e cuecas não apareçam (quando este é o objetivo, né) e, claro, de não deixar a calça cair. Enquanto eu estava ali, lutando bravamente e pensando se não haveria um manual de instruções da roupa guardado em alguma gaveta daquele cômodo gigante que decorava a sala, ela jogou os braços para trás e começou a mexer o quadril, lentamente, bem len-ta-men-te. Naquele momento, exatamente, consegui abrir o último empecilho entre o meu prazer e a diversão dela. Porque tava na cara que ela se divertia muito. Eu tava tenso demais para pensar em diversão. Foi aí que ela me olhou com a cara mais provocativa que ela conseguiu armar e disse: vai sonhando! Vai sonhando?! Puta que pariu, cara! Pulei da cama, né! Tava meia hora atrasado pro trampo.

A Aposta

(da série: exercícios de oficina)

O maltrapilho vestia lilás
Com um chapéu de deboche
Da borboleta, ia atrás
Riscando o céu escarlate

Era a galope que vinha
Aquele quadro da dor
Azar se pagasse mico
Importante era o humor

Para o vaqueiro desinibido
Chegava ao fim a aposta
Deixando a vergonha com o amigo
Que desfilaria de rosa

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Um caminho para o céu

No dia em que o Nemo morreu, no começo desse ano, quis ensinar uma lição para a Manuela. Chamei ela, mostrei aquele peixinho boiando no pequeno aquário, a barriga para cima, e perguntei se ela queria se despedir do amiguinho. Com a afirmativa, fomos até o banheiro do nosso apartamento e, num momento filosófico-barato ("da água viestes e para a água retornarás"), despejamos tudo no vaso sanitário: a água, o beta vermelho e um pouco da ilusão daquela menina.

Ali, naquele lugar tão impróprio (mas funcional, convenhamos) para um ato tão simbólico, demos adeus ao animalzinho.

- Agora, filha, ele está lá no céu. Virou uma estrelinha - sentenciei.

Ela ficou muda. Chegou a fazer um beiço de choro, mas aguentou firme. Nos dias seguintes, notei que ela observava as nuvens. Até que veio o comentário:

- Acho que eu vi o rabo do meu peixe, pai - disse, apontando para o espaço.

***

Na última segunda, cheguei em casa mais cedo. Coloquei a Manu no colo e fui ter uma conversa séria com ela:

- Manu, o nosso vozinho Osmar morreu. Ele já era muito velhinho. E agora ele foi pro céu.

E ela, com os olhos arregalados, perguntou:

- Tu vai colocar o vô na patente, pai?

Manuela tem 3 anos e seis meses.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

João-do-Bairro

João
Lembras do dia em que te falei
Para irmos juntos à janela
Daquela que sempre amei?

Sumistes
E fui sozinho
Contando as pedras pelo caminho
Perdido em passos que nunca dei

Ingênuo
Imaginei a reação
Daquela moça tão amável
Quando soltasse minha ilusão

Corri
Sorriso largo só de pensar
Naquele beijo doce e quente
Que estava para ganhar

E sozinho
Escalei aquela escada
Que espichava até a sacada
Da futura namorada

Mas João
Por que não me avisastes
Que teu sumiço era indício
De um fim logo no princípio?

Pelo vidro
Vi um abraço pegajoso
Que esquentou a minha raiva
De amante sanguinoso

Então lembrei
Da história da tua Maria
Sem-vergonha e desgraçada
Que morreu trancafiada**

E na escuridão
De uma noite bem gelada
Foi que deixei a minha amada
Morrer incendiada

E pelo bairro
Espalharam minha história
De corno endiabrado
Que pensava estar vingado

Ledo engano fraternal
Aquele abraço entre os dois
Pois quem via do quintal
Não sabia que eram irmãos

Só agora, João-de-Barro
Que meu amor está lacrado
Tu retornas ao meu lado
Pra aumentar a minha dor

Enquanto estavas no pombal
Teus conselhos me faltaram
Pra segurar o animal
Que só as cinzas acalmaram

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** O João-de-Barro não tranca a parceira